quinta-feira, 26 de junho de 2008

Entrevista com Ladislau Dowbor



por Patricia Fachin
Jornalista do Instituto Humanitas Unisinos (IHU) da Universidade Unisinos
A Humanidade caminha para uma “catástrofe em câmara lenta”, e as aventuras especulativas com os alimentos, a má distribuição alimentícia, o consumo irracional e o mau manejo da água contribuem para acelerar os problemas da fome no mundo contemporâneo. Essa posição é defendida por Ladislau Dowbor, economista e professor do PPG em Administração da PUC-SP. Nesta entrevista, o pesquisador apresenta diferenças entre as propostas de biocombustíveis apresentadas pelos EUA e o Brasil. Argumenta que, no caso dos brasileiros, seja possível investir em biocombustível sem prejudicar as safras alimentícias. Entretanto, ressalta, “corremos o risco de que a busca de alternativas energéticas gere no Brasil um novo ciclo agroexportador que trará dólares e riqueza para poucos”. Associar a produção energética e a produção alimentar à pequena e média agricultura, alerta, “pode dar um novo reequilíbrio social ao meio rural”.



Em outra entrevista anterior concedida à IHU On-Line, o senhor afirmou que não há insuficiência de produção de alimentos e sim mau uso desses alimentos e má distribuição. É a isso que o senhor atribui a crise de alimentos no mundo?

Temos 6,7 bilhões de habitantes, e produzimos mais de 2 bilhões de toneladas de grãos, o que significa que produzimos quase um quilo de grãos por pessoa e por dia no planeta, amplamente suficiente para alimentar a todos. Há diversos processos que estão convergindo para criar dificuldades, alguns de curto prazo, outros mais estruturais. De imediato, a crise financeira provocada pelas aventuras especulativas dos investidores institucionais (norte-americanos em particular) está desviando fundos anteriormente aplicados na área especulativa imobiliária para aplicações consideradas mais seguras, e para os especuladores investir no mercado de futuros de grãos parece seguro. Ou seja, já se está especulando com os alimentos, e a alocação de fundos especulativos nesta área eleva os preços. Um movimento mais amplo e de fundo está puxando grãos alocados para alimentação para a produção de biocombustíveis, movimento particularmente forte nos Estados Unidos, que utilizam milho para este fim, o que, além de antieconômico (o balanço energético do biocombustível de milho não é interessante), puxou para cima os preços.
A especulação se realimenta neste processo, prevendo que haverá falta de grãos, e aprofundando esta falta ao apostar na alta de preços. A alta de preços dificulta o acesso à comida por parte dos mais pobres, cerca de 800 milhões de pessoas no mundo que não comem o suficiente.
Convergem ainda para este problema as pressões sobre o mercado de alimentos que resulta do aumento de consumo na Ásia, em particular na China, onde boa parte da população está passando de consumo direto de grãos para consumo mais sofisticado (grãos que alimentam galinhas ou porcos, por exemplo), o que desvia grãos para alimentação animal. Em outros termos, há uma crescente demanda sobre os alimentos no planeta. O mundo tem 75 milhões de habitantes a mais a cada ano, na maioria pobres. A pressão sobre os preços gera mais pobres, não por falta de alimento, mas por este se tornar objeto de especulação e de consumo irracional.
Outra linha de preocupação resulta do mau manejo de água. Na visão de Lester Brown, há uma crescente preocupação com o esgotamento de lençóis freáticos, pois as modernas tecnologias permitem extrair água em grandes volumes, muito mais rápido do que a capacidade de reposição por águas de chuva.
Em longo prazo, o problema pode ser dramaticamente agravado pelo derretimento dos gelos na Ásia Central, onde as grandes cadeias de montanhas, com suas geleiras, constituem as principais bases de alimentação dos grandes rios, ameaçando a civilização do arroz. Assim, os problemas convergem, e o mercado não consegue regular o processo; pelo contrário, tende a agravar os desequilíbrios.

Essa crise pode gerar outras? Em que intensidade?

Há cientistas que falam em “catástrofe em câmara lenta” (slow motion catastrophe). Esta visão fica bem explícita no documento IAASTD (International Assessment of Agricultural Knowledge, Science and Technology for Development), que acabou de ser aprovado em Johanesburgo no dia 15 de abril (2008), resultado de três anos de pesquisa de centenas de especialistas em agricultura no mundo, com participação dos principais centros de pesquisa acadêmicos e empresariais, além das organizações internacionais como o Banco Mundial, entre outras.
As conclusões são de que a simples expansão da monocultura extensiva, com quimização e irrigação em grande escala, está nos levando a impasses estruturais. É o modelo que está desequilibrado, ao destruir as bases da agricultura familiar que ainda ocupa a metade da população mundial. Sementes caras e monopolizadas, circuitos comerciais cartelizados, tecnologias pesadas desenvolvidas apenas para monocultura de grande escala, esterilização dos solos por excessiva quimização, esgotamento dos aqüíferos, todas estas tendências são hoje apresentadas na sua dimensão de círculo vicioso desestruturador.
As propostas do documento vão no sentido do bom senso, de se apoiar a agricultura familiar e as estruturas sociais de sobrevivência rural, além da revalorização das tecnologias inovadoras que possam ser articuladas com processos tradicionais.

Por que o Planeta começa a apresentar sinais de caos no que se refere a questões sociais e ambientais? Essas estão interligadas?

O Planeta, hoje, reconhece apenas um mecanismo regulador, o mercado. Este deixou de ser fluido, torna-se cada vez mais viscoso na medida em que poucos grupos mundiais controlam gargalos do processo, como, por exemplo, o acesso a sementes, e agem de forma pró-cíclica nos preços ao negociarem gigantescos volumes. O balanço energético deste tipo de agricultura é irracional (energy-in/energy-out). Quando os grandes produtores de um país vêem os preços subirem no mercado internacional, passam a se desinteressar das necessidades alimentares da própria população. O sistema irá precisar recorrer a mecanismos que são conhecidos, mas foram desestruturados pelos grandes grupos, e que consistem essencialmente em planejar e organizar a segurança alimentar como prioridade planetária.

É possível conciliar a plantação de commodities para produzir biocombustíveis e, ao mesmo tempo, garantir o consumo seguro de alimentos? Como conciliar essas duas posições?

No Brasil, tal problema não se coloca. As opções brasileiras residem essencialmente na cana-de-açúcar, a qual apresenta um balanço energético muito favorável e uma ocupação da terra perfeitamente sustentável.
Hoje o Brasil possui a maior reserva de terra parada do Planeta e imensas reservas de água. Grupos internacionais já estão comprando grandes extensões de terras no Cerrado, preparando-se para a especulação com a escassez. Um controle nesta área seria razoável. Mas a cana tem como evoluir no próprio Sudeste, ocupando áreas subaproveitadas, hoje ocupadas pela pecuária extensiva que constitui essencialmente um gigantesco subaproveitamento de terras. A tensão no Brasil entre o biocombustível e o alimento é perfeitamente manejável, mas corremos o risco de que a busca de alternativas energética gere no Brasil um novo ciclo agroexportador que trará dólares e riqueza para poucos. Associar a produção energética e a produção alimentar, baseando-se na pequena e média agricultura, pode dar um fôlego novo ao reequilíbrio social que o mundo rural brasileiro tanto precisa.

Por que há tantos conflitos entre a produção de alimentos e de energia?

A origem deve-se a uma política errada nos Estados Unidos. Em longo prazo, precisamos pensar que tanto os EUA como a Europa estão definindo a obrigatoriedade de mistura de biocombustíveis em proporções crescentes com os combustíveis à base de petróleo, e a pressão deverá continuar. Entre a demanda dos proprietários de carros no mundo e a demanda dos pobres que querem comer, não tenho dúvida quanto a quem terá maior força de pressão.

O Brasil pode contribuir para a redução do preço de alimentos no mundo, tendo em vista todos seus recursos naturais? Qual é a importância econômica e social do país nesse contexto?

O Brasil tem terra, água, tecnologia, capacidade de organização. Tem escala para influir, mas não para decidir.

De que outras maneiras a energia limpa pode ser produzida sem comprometer os alimentos e gerar uma possível escassez de comida no mundo?

Cada fonte deve ser estudada de maneira integrada. A soja gera apenas um emprego em 200 hectares, o óleo de palma é mais produtivo e gera um emprego em 10. Para cada opção, precisamos levar em conta o balanço energético, as exigências de água, a geração de emprego, os impactos ambientais, e o impacto sobre a organização social de cada região. No Brasil, para equilibrar as tensões, criamos um Ministério da Agricultura, que olha basicamente o agronegócio, e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, que lida com a massa dos produtores de alimentos para o mercado interno. A agricultura não é apenas um mecanismo econômico de insumo-produto, mas uma base de vida e de organização social. As pessoas esquecem que 17 milhões de pessoas trabalham na agricultura brasileira, enquanto a totalidade dos empregos industriais é de 13 milhões. Quem trabalha no campo mora no campo, precisa de meio social, comunicação, transporte, redes de apoio (crédito, energia, tecnologia, formação, comunicação, comercialização, estocagem etc.). A simples expansão da monocultura apenas expulsa as pessoas do campo, gerando novos dramas nas periferias urbanas. O Brasil é muito grande e diferenciado. É importante desenvolver políticas locais integradas coerentes com o contexto de os recursos disponíveis.

Fonte: Eco 21

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